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o pequeno e cadente olhar estrelado,
as mãos sumindo nos dedos esquálidos.
os gestos e sonhos bailam sem ritmo
por onde a vida desgasta os pés.

a hora, quase sempre nula,
faz da face um tom mais claro.
a lembrança, de cores tardias,
tece a moldura do eterno.

se assemelha em muito à leveza
esse jeito torto e magro
de escalar por entre passos
como se levitasse por vento ou medo.

o peito em ferro, indormido,
a carne marcada, delirante…
diante do espelho vejo o desejo,
do que anda contigo e desconheço..

juramos amor interno.
não pensamos em nada, senão no fim.
descrevemos cartas, roteiros, julgamentos;
depois o mundo é muito; e não se pinta de anil.

descobrimos a forma inexistente da ausência;
a angústia, vestida de branco, olhos vendados,
desenhou nos seus gestos o frágil contorno
que sustenta nossa imagem.

das palavras que te disse
no silêncio, esquece o eterno.
na madrugada ignorada o vácuo de deus
traça o destino onde seremos possíveis.

poema primeiro

no silêncio do imenso destino,
na noite natural dos encontros,
surgiu teu corpo onde as estrelas
despertaram o sonho oceânico.

despede-te do pacífico, dos teus pequenos rios,
borda-te no tronco, descrito na parede,
tece com pincel nossas inicias;
a profecia se realiza através de ti.

desculpa colorir de vermelho as girafas
desculpa sequer ser inverno
eu sei que tua poesia, pequena,
me faria atravessar a cidade inteira sem bicicleta.

acolhe-me também de manhã,
quando entre rosas e violeta
entre a inexistência de shakespeare e da noite
penduramos no mesmo pescoço o sol e a lua.

afinal, de esquina em esquina,
no espaço do espaço esperam comigo
os poemas, um desejo de cabeça pra baixo:
o que de ti me agarro quando não estás

funde-me em teus vazios até o fundo,
lentamente, fechando os olhos,
invade-me com teu sonho, supondo
que seja um sonho o infinito.

sabes sobre a borda do mundo
entendes o giro que o corpo faz
quando o desejo da meia-volta é certo
perguntas das estrelas que no céu
desaparecem por medo da terra
enfatizas a certeza que tens
quando a naturalidade do espelho
reflete um outro que não você
escreves e entende, por certo,
o que em mim é alheio
e o que já fui quando não estavas

nem o poeta nem o poema nem a poesia
nem mesmo um poeta
que escreve um poema
desses cheio de poesia

nada disso é tão palpável
e ao mesmo tempo tão surreal
quanto o curso de nossas mãos
sob a pele dos nossos destinos

não há inferno nos submundos do mundo.

não há nada além do céu,
e se há, é apenas uma vaga ilusão do
paraíso.

dentro de nossos limites pulsa sangue,
escorrem excrementos,
mas sobre a alma que nada sei
nada posso lhes afirmar.

de fato; algo impulsiona a seguir;
a sempre seguir o compasso dos homens…
e se o que conhecemos do mundo é tão ínfimo,
como poderíamos, enfraquecidos, humanos, deliberadamente desistir?

como podemos agir
se ao nascermos nos impuseram o peso de uma morte…
a todos nós; o fardo da eterna cruz…

se ao nascermos,
-em tudo estamos instinto-,
nos afogam sem desespero
a fim de que estejamos sempre recolhidos
sobre o peso d’um deus maior…

como posso eu, e todos aqueles que se intitulam Insanos,
discretamente vivermos nossas vidas à beira do instinto
à beira do desvario vão da vileza
como podem os poetas e as putas
viverem poeticamente em seus poemas
se até isso afeta um ser humano e seus espelhos
se até o uivo da nudez n’um espetáculo
incomoda àqueles que aceitam apenas o
discreto medíocre?

desexistir

desejo de desexistência;
minguando, dia-a-dia,.
algo das sombras desfeitas
entre as lembranças do que não fui

o encanto vadio invade a vastidão de meus olhos
e minha turva visão anuncia nova musa ou semi-deusa…
espere os que anseiam teu cortejo
entenda a ânsia que nos margeia
se findou, não era teu,
se padeceu, céu não era…

escute bem quando não digo nada
quando ao fundo do sonho surgir outro sonho
e nele não se fundir a ideia de um sonho meu

enxergue com atenção enquanto não te demoras
e verás que sobre todas as coisas
existe o tédio do pertencimento

diga-me algo tão grave
que me obrigue a esquecer o desespero
e reinventar a roda do amor…

teu retorno

não atento por que boleros soturnos
aparento assim tão diferente…

o tempo invade a rua
donde a domingueira expandida
umedece o silêncio dos fantasmas.
és um vulto que vejo
em face das febres tuas.
meus olhos reclamam-te sem pranto.
sinto-te rainha dos delírios,
és nobre delírio,
amor meu.

os último cigarros decoraram meus desejos,
minha boca desértica imprimiu tua vontade,

de longe enxergo o grave cortejo
estendendo teu estrelado retorno.